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domingo, 1 de novembro de 1970

À guisa de apresentação

Um blog tem sempre um começo. O meu … começou há mais de 40 anos… J. Não havia internet, não havia GPSs, a televisão tinha só um canal … mas havia Natureza, havia montanhas, mares, florestas, havia sede de viver! Então com 17 anos, em 1970 um rapaz urbano e pacato começou a descobrir a sua vocação: o contacto com a Natureza, com os grandes espaços naturais, com o mundo rural ... o desbravar das fragas espalhadas por muitos "paraísos perdidos", pelos quais a vida o levaria a apaixonar-se.
Até aí, o rapaz pacato já tinha percorrido toda a Europa de automóvel, do Cabo da Roca ao Cabo Norte, ao fim da Escócia, a Moscovo e a Istambul, e também Marrocos, como "aperitivo" africano. Nessas viagens com seus pais, o que mais recorda são precisamente os grandes espaços, as highlands escocesas, as verdejantes colinas da Irlanda, os fiordes nórdicos ou as grandes paisagens alpinas. O apelo da Natureza…
Espeleologia na Serra de Aire: regresso
da "Missão Proteus", 15.11.1970
No longínquo ano de 1968/69 e nos dois seguintes, o rapaz da nossa história teve um professor que o influenciou para toda a vida. Havia, no então Liceu Passos Manuel, um Núcleo de Espeleologia que aquele professor dinamizava, ligado ao Centro Nacional Juvenil de Espeleologia. E a vida do rapaz mudou…! A vida ao ar livre, os acampamentos, o são convívio, a exploração de grutas e algares, as longas caminhadas, passaram a ser o modo de estar na vida daquele rapaz pacato … que mais tarde veio a ser também ele professor … das Ciências da Vida … levando os seus alunos a aprenderem a amar e a respeitar a Natureza, percorrendo com eles os vales e as fragas de quase toda a Península Ibérica e das ilhas atlânticas.
Hoje, o rapaz de há 40 anos recorda a sede de viver que o levou a inscrever-se também, em 1971, no Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador, onde o contacto com a Natureza tomou outro rumo: o mundo submarino. Estava agora no reino do silêncio, no habitat natural dos peixes, dos ouriços e das medusas, sobrevoando as folhas largas das laminárias; apenas as bolhas gasosas se libertavam do regulador e o ligavam à superfície, ao mundo dos homens.
Em pouco mais de 2 anos, aumentou em 10 vezes as noites de campo que tinha nos seus parcos 17 anos. Num verdadeiro ambiente de sã camaradagem, viveu com o seu grupo experiências inesquecíveis. Percorreu serras e vales, planícies e rios, dormindo em palheiros, ao relento, no fundo de grutas por vezes inundadas de lama, entre caixotes no porão de traineiras, ou em tendas armadas no alto de serras ou no meio de matas luxuriantes, por vezes sob um céu repleto de estrelas, em silêncio ou ao som de velhas baladas. Aqueles anos da sua juventude foram realmente intensamente vividos! A aventura das noites passadas no campo, dentro da tenda, ouvindo o cantar das águas de um riacho, o restolhar de algum animal assustado, o estalido da lenha na fogueira que ficou morta mas renasceu! As aventuras nas entranhas da Terra, entre estalactites e estalagmites, rodeados de formas fantasmagóricas mas reais! E outra vez aquelas caminhadas a pé, serra acima! Agora já não há Sol, há chuva, há nevoeiro, mas que importa? O que interessa é continuar para a frente, por vezes encharcados até aos ossos, mas felizes, porque se dirigiam para a meta que lhes havia sido reservada: a Vida!
Acampamento nos pinhais de Santa Cruz,
16.07.1972 (o rapaz pacato é o do meio...)
Hoje … o rapaz pacato de há 40 anos tem filhos e netos! Mas o apelo da Natureza guiou-o sempre … e a Vida tem-lhe proporcionado chegar a múltiplos "paraísos". A montanha, o verde, a água, os sons do silêncio, as cores e os cheiros da Natureza, o vento, o frio, o calor, a escuridão da madrugada que vai dar lugar ao Sol, a magia dos bosques, os blocos de granito imponentes, as folhas das árvores ou dos fetos … são os seus companheiros nos "paraísos perdidos" por onde deambula … envoltos numa música celestial, quase sempre a música tradicional dos paraísos que o recebem. Vivendo e amando a Natureza em geral, ao longo destes 40 anos o rapaz, nascido e criado na grande cidade, elegeu contudo três "paraísos", que adoptou como as suas "terras natais": a raia Sabugalense, que viu nascer aquela que foi e é a sua companheira de uma vida, o Parque Nacional da Peneda-Gerês e as montanhas e vales de Somiedo, no coração do paraíso asturiano.

Voltando à primeira pessoa: aqui fica o meu muito obrigado ao meu velho professor de Ciências Naturais, Dr. Hernâni de Seabra Ribau! Por ironia do destino, cheguei a ter uma Volkswagen "pão-de-forma" idêntica à que ele tinha, na qual fizemos algumas das nossas "expedições". A imagem dessa velha VW atravessando serras e vales nunca me desapareceu da memória. Enquanto tive a minha ... nela transportei igualmente alguns dos meus alunos, alguns dos que comigo aprenderam a amar a Natureza, a conviverem, a serem felizes!
O repositório de instantâneos que será este blog é dedicado à memória do Dr. Ribau … e o blog nasce no dia em que se comemoram os 100 Anos do Passos Manuel! Reencontrei hoje velhos companheiros de "aventuras" que não via, nalguns casos, há mais de 40 anos! O blog começará precisamente por ser um arquivo de rabiscos retirados do pó de velhos "Diários" … pelo menos até que essas memórias cheguem à actualidade … se chegarem… J
Escrito em 9 de Janeiro de 2011

6 comentários:

António disse...

Parabéns Zé.
Gostei e fico à espera de mais.
Tens muitos contos de fragas, para partilhar aqui!
Dá asas a este blog...
Um abraço.
Mousinho

magee disse...

Gostei. Estou pronta a conhecer essas histórias que te darão muito prazer em partilhar e a mim a acompanhar.
Um abraço
Margarete

bissaide disse...

Também gostei muito de ler este primeiro texto! Um beijo do teu filho João

profg disse...

Tendo sido sua aluna, espero um dia deixar nos meus alunos um pouco da imagem indelével que em mim deixou. Obrigada por tudo. Continue a relatar aquilo que me deixa com saudades e inveja (as viagens).

JORGE FIGUEIREDO SANTOS disse...

Apreciei a dedicatória ao Ribau e a oportunidade de lançares o blog no dia do centenário do n/Passos Manuel.
Quase meio-século passado procurarei acertar o passo e não voltar a "chumbar" pelo caminho. Vamos lá, percorrer os trilhos do meu colega Callixto, mantendo as devidas distâncias, nada de espeleologia, nem mergulho, aí fico a ver cá fora, a olhar para o écran...

José Carlos Callixto disse...

Obrigado a todos, aos que já comentaram e aos que eventualmente ainda venham a dizer algo. Continuem a acompanhar ... porque ainda falta muito para chegar à actualidade... :-)